Quarta-feira, Março 07, 2012

O melhor de Robert De Niro

Faz alguns anos que Robert De Niro não entrega um bom filme. O último, ao que parece, foi Ronin, de John Frankenheimer, de 1998. De lá para cá, o ator abraçou a indústria: fez filmes no piloto automático, de olho nos cachês e na roda que, para ele – como para muitos –, não para de girar. É a roda de Hollywood, na qual muitos astros e diretores percorrem um caminho inverso ao imaginado: começam a carreira com bons filmes, trabalhos corajosos e contestadores; e seguem em puro comodismo, como se pudessem fazer o que querem apenas pelo nome – e pela marca – que carregam. Não raro, tornam-se caricaturas.

De Niro é um caso curioso. Um ator raivoso e explosivo em alguns trabalhos no início da carreira. Em outros, um italiano sereno, quieto, cuja personagem deveria antecipar os passos de um Marlon Brando em sua personagem mais famosa: Don Vito Corleone. Abaixo, uma lista de bons momentos de De Niro. Obras que fazem pensar em sua carreira e que ainda lhe reservam papel de destaque na história do cinema.

Johnny Boy

A abertura de Caminhos Perigosos, grande obra de Martin Scorsese, é dele: Johnny caminha para causar uma explosão. Pura arruaça no belo filme marginal do cineasta americano, uma de suas obras mais pessoais e livres. Pena que não lhe deram bola, em tempos nos quais Clint Eastwood já esbravejava palavras de força contra alguns bandidos em Perseguidor Implacável. Em sintonia com o seu tempo, Johnny Boy sobe em uma mesa para chutar os inimigos. Briga com todos e faz dívidas. Cabe a ele, um coadjuvante, mover o mal e os problemas da fita – e cabe a ele, ainda, colocar o resto do elenco no bolso.

Vito Corleone

O menino que veio da Sicília após ver a mãe ser assassinada tornar-se-ia um dos chefões da máfia nos Estados Unidos em O Poderoso Chefão – Parte 2. É um homem quieto, que ainda carregava algumas características do menino mudo, também de aspecto doente. O menino cresce, fortalece-se e impõe sua escalada: mata um poderoso líder do bairro e quer mais, não para nunca. No entanto, parece mais maleável e ainda digno de um voto de fé quando comparado ao seu sucessor, o filho Michael Corleone, vivido por Al Pacino. A personagem rendeu um Oscar para De Niro e o colocou em um grupo de atores importantes nos quentíssimos anos 1970.

Travis Bickle

Com o corte moicano, Travis passa do homem de poucas palavras, trabalhador, em horas intermináveis a bordo de seu táxi por Nova York, a um assassino disposto a limpar a América. O legado está justamente nessas mutações. Em Taxi Driver, Scorsese examina o homem louco da metrópole – sobrevivente de uma guerra e condenado a viver à deriva do mundo real, o mundo que tentava ajudar a salvar. É também o homem que busca uma saída, que circula em seu táxi por um caminho interminável entre névoa e a música exata de Bernard Herrmann. Torna-se o cavaleiro solitário: como John Wayne em Rastros de Ódio, quer seu alívio no símbolo da inocência corrompida. No filme clássico, a jovem levada pelos índios; no moderno, a jovem que se tornou prostituta e é agenciada por um cafetão.

Michael

Alguns anos após o fim dos conflitos no Vietnã, a ferida continuava aberta. Michael Cimino, jovem diretor da “nova Hollywood”, levava à frente grande ambição: contar a longa história de três amigos que lutam na Guerra do Vietnã e têm suas vidas transformadas em O Franco-Atirador. Michael, na pele de De Niro, é um deles. Condenado a viver em busca dos amigos, é também condenado a viver à sombra da mulher que ama, interpretada por uma jovem Meryl Streep. Como o mundo, aqui, passa longe da perfeição, ela também se vê condenada ao sofrimento, já que seu grande amor é outro, está na guerra e, ao que parece, enlouqueceu em um jogo impensável de roleta russa. Por muitos motivos, o filme é marcante, uma amostra da camaradagem entre homens que ainda faz sentir. Um drama na medida certa com De Niro em sua melhor forma.

Jake La Motta

O boxeador interpretado por De Niro tinha características curiosas e chegou a fazer uma ponta no grande Desafio à Corrupção, de Robert Rossen, filme que Scorsese nunca escondeu amar. Mas um filme no qual o verdadeiro La Motta era pequeno, despercebido, nada que fizesse pensar na fúria que De Niro, depois, levaria à sua face. Em Touro Indomável, o título explica tudo. Por este terreno, alguma irracionalidade masculina ligada à impotência em domar a mulher, em acreditar nela, em fazer sexo com a mesma às vésperas de uma luta. Não poderia. O animal, assim, estava encarcerado em sua falta de forças, em seu próprio ciúme que levava às alturas. No ringue, pagava seus pecados, entregava-se à dor como se ali fosse a arena do alívio.

Rupert Pupkin

Em outra parceria com Scorsese, De Niro vive um homem em busca do sonho americano: o sucesso. Estar na televisão e ser ao público pura alegria. O homem do riso, da comédia. Tudo muito espetaculoso não fossem as dificuldades e a própria crítica a esse sistema de cômicos com outra face por trás do show. Não fosse a fórmula essencial de O Rei da Comédia: o cinismo. E é ai que entra ninguém menos que Jerry Lewis, em um papel dramático também sob medida. O Lewis impensável em contraponto ao De Niro falastrão, que se tornava outro longe das câmeras. Era o homem comum. O material, é verdade, não tinha o cheiro de Scorsese, o que não impediu que De Niro – mesmo em duelo com o grande Lewis – entregasse uma bela interpretação.

David “Noodles” Aaronson

Apenas o nome de Sergio Leone nos créditos faria qualquer ator em plena sanidade correr para o elenco de uma obra como Era Uma Vez na América. Não chega à grandeza das duas primeiras partes de O Poderoso Chefão, mas surge exemplar em muitos aspectos, a começar pela recriação de época e pelo texto – narrado em flashback – que expõe a saga de um grupo de amigos e suas ligações com a máfia. De Niro é sua peça principal e, logo nas primeiras imagens, está entregue ao ópio. O que resgata, em mente, é algo real? Ou tudo não passa de um delírio e uma viagem a um passado com doses de nostalgia e bandidismo mirim? Como se vê, Leone é um mestre. Fala da América em sua trilogia iniciada ainda nos anos 1960. Fala de um território de enigmas.

Rodrigo Mendoza

O conquistador de A Missão mata o próprio irmão, cai na pobreza, paga seus pecados por meio da religiosidade e vê-se, então, ao lado dos índios em um filme ganhador da Palma de Ouro. O papel cabe à perfeição ao ator, que sabe muito bem como mudar de lado, transformar-se sem cair em exageros. A trilha é de Ennio Morricone e imprime suavidade em contraste ao homem tatuado de De Niro, o ser antes asqueroso, depois libertador e corajoso. Roland Joffé havia acertado, antes, com Os Gritos do Silêncio e voltou à boa forma com A Missão – mais uma vez em território nada comum ao grande público americano.

Al Capone

Os Intocáveis não é lá o estouro que se espera. Brian De Palma, seu realizador, teve momentos melhores – antes e depois. No entanto, ao tratar a máfia com um olhar que a infla ainda mais de glamour e que faz pensar em alguns filmes clássicos, não permite que a obra seja ignorada. Muito menos a personagem de De Niro, Al Capone, o todo-poderoso da máfia nos anos da lei seca. O elenco tem nomes para todos os gostos: Kevin Costner, Sean Connery e, além do malvado De Niro, um jovem Andy Garcia. Era a fórmula perfeita, muitos acreditavam. O filme, uma pena, não foi além da boa diversão e de uma homenagem a O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein, na sequência em que o carrinho de bebê desce pelas escadarias.

James Conway

A verdadeira mente do mal em Os Bons Companheiros é James Conway. Com Joe Pesci e Ray Liotta, dá luz a uma trinca cujas partes, no decorrer da obra de Scorsese, soam diferentes. Se De Niro é o grande malvado, assassino calculista, Liotta serve de protagonista, o bom aventureiro que desce ao inferno em sua vida como mafioso. E Pesci é o assassino sem medo de atirar, que adora matar. A personagem de De Niro, nesse meio, é coadjuvante de peso, viva na maior parte das sequências importantes e naquele inesquecível plano-sequência, no bar, em que apenas seu olhar revela seu desejo: ele mandou matar todos que estão por ali.

Leonard Lowe

Para provar sua versatilidade, De Niro distancia-se dos ternos típicos dos mafiosos, do ser grotesco pelas ruas de Nova York, e chega em boa forma como um doente à beira de seu despertar. Sai de sono duradouro para viver pelas ruas, em uma nova descoberta, a vida que lhe foi tirada. Tempo de Despertar, de Penny Marshall, rendeu a De Niro outra indicação ao Oscar na categoria principal. Indicação justa, já que o ator dá um show e consegue ultrapassar até mesmo seu colega em cena, Robin Williams, o doutor que leva Leonard a seu despertar.

Max Cady

Reviver uma personagem consagrada na pele de outro ator é sempre um risco. De Niro, mais uma vez ao lado de Scorsese, decidiu corrê-lo. Vive, emCabo do Medo, Max Cady, o vilão perfeito aos medos da classe média americana e que um dia fora interpretado por ninguém menos que Robert Mitchum. Sim, o inesquecível pastor de ovelhas de O Mensageiro do Diabo, além de outras interpretações marcantes. Diferente de De Niro, Mitchum seria mais lembrado pelos vilões, seres menos ambíguos se comparados às personagens dos anos 1970. Eram outros tempos. Max, em qualquer um dos casos, quer vingança. Quer também se divertir à maneira que sabe: tortura, seduz e coloca a vida de uma família de cabeça para baixo.Cabo do Medopassa longe de um grande filme, mas, com De Niro à frente, faz o ingresso valer a pena.

Sam “Ace” Rothstein

O esperto chefe de um cassino, o homem que aparentemente não pode ser passado para trás, perde suas fichas quando algo mais forte que ele surge à frente: Sharon Stone. Quem poderia resistir à mesma loura que, antes, havia legado à história uma famosa cruzada de pernas? Loura, quase perfeita enquanto cínica e atroz, ela faz o homem render-se emCassino. Joga as fichas ao alto enquanto ele vê tudo a distância: observador, pacato, consciente. E como tem consciência! Reconhece o terreno perigoso no qual está prestes a entrar. Aceita o jogo e se vê enroscado em uma trama nada fácil neste filme que passa longe da melhor parceria Scorsese/De Niro. No entanto, em comparação com as atuais produções do ator, um tipo de filme que faz falta.

Segunda-feira, Fevereiro 27, 2012

OSCAR

Sete momentos que entraram para a história da premiação

A cerimônia do Oscar é marcada por muitas injustiças, polêmicas e controvérsias, mas também por certos momentos únicos que ficam na memória de todos aqueles que acompanham a indústria americana. Vamos relembrar alguns destes principais momentos da premiação.

Obs: A maioria destes vídeos não permite ser incorporado a outros sites, então fiz no esquema tradicional de imagens, mas você pode ver todos os momentos clicando nos links abaixo das fotos.


7. 52° Oscar - 1980
Melhor Ator - Dustin Hoffman, por Kramer vs. Kramer

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6. 36° Oscar - 1964
Melhor Ator - Sidney Poitier, por Uma Voz Nas Sombras

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5. 45° Oscar - 1973
Melhor Ator - Marlon Brando, por O Poderoso Chefão

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4. 71° Oscar - 1999
Melhor Filme de Língua Estrangeira - Roberto Benigni recebe por A Vida é Bela

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3. 69° Oscar - 1997
Melhor Ator Coadjuvante - Cuba Gooding Jr. por Jerry Maguire - A Grande Virada

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2. 74° Oscar - 2002
Monólogo de Woody Allen em tributo a Nova York

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1. 44° Oscar - 1972
Oscar Honorário - Charles Chaplin

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Domingo, Fevereiro 26, 2012

LOST



Como o tempo passa rápido. Para quem viveu Lost (mas não perdido) intensamente por seis anos, a lembrança da grande expectativa que cercava o dia da exibição do último episódio da série ainda deve estar viva na memória. Naquele domingo, mesmo para os que já não curtiam a série como antes, era impossível ficar indiferente ou não se flagrar olhando no relógio a todo instante à espera do momento derradeiro que marcaria a despedida daquele inesquecível grupo de personagens e suas histórias maravilhosas. Lost não foi uma série perfeita (que série foi/é?), mas passado um tempo desde seu fim, a certeza de que testemunhei e fiz parte da experiência televisiva mais significativa de todos os tempos só não é maior que a saudade que tenho dela e do que ela respresentou para mim.

Lost foi aonde nenhuma outra produção jamais tentara ir. Como produção mainstream da tv aberta americana, a série ousou explorar, através das mais diversas alegorias, questões que no mundo real não tem respostas definitivas. Assim, quando em dado momento da última temporada o Homem de Preto diz que a pergunta que todos aqueles personagens deveriam fazer era ‘Por que vocês estão nessa ilha?’, encarávamos, numa sútil metáfora, aquela que é justamente a maior dúvida do ser humano, ‘Por que estamos aqui?’

Os roteiristas de Lost obviamente não responderam essa e outras questões existenciais que tomaram forma ao longo da série, mas apontavam, episódio após episódio, que tipo de perguntas deveríamos fazer para que nós mesmos encontrássemos essas resoluções. Nisso, à medida em que acompanhávamos os dilemas morais que se desenvolviam nas muitas reviravoltas da história, pudemos sempre encarar a oportunidade de nos perguntar, ‘Como eu reagiria nessa situação?’. E nesse sentido, como nenhuma outra, Lost nos fez questionar as noções que temos de certo e errado, e talvez até mesmo reavaliar opiniões ou coisas em nossas vidas que tínhamos como verdades absolutas.

Vida, morte, renascimento, esperança, redenção, raiva, tristeza, dúvidas, solidão, ganância, vingança, compreensão, união e amor. Lost falou disso tudo e sobretudo sobre a dicotomia entre o instinto de preservação individual e o de aceitar o sacrifício por algo maior ou alguém. Ao colocar vários de seus temas em oposição – preto/branco, bom/mau, certo/errado, destino/livre arbítrio –Lost nunca se furtou em apresentar argumentos para ambos os lados corroborando a ideia de que a verdade quase sempre se encontra em algum ponto no meio do caminho e que não existem respostas fáceis para grandes questões.

Sábado, Fevereiro 25, 2012

O triângulo amoroso mais famoso do rock

Pattie com o marido George Harrison: "Something in the way she moves"

Hoje, 25 de fevereiro, George Harrison estaria completando 69 anos caso estivesse vivo. Como ele já seria tema de algum post nesse blog mais cedo ou mais tarde, nada mais justo do que fazê-lo hoje.

É bem verdade que talvez George vendo lá de cima fique um pouco chateado de eu estar falando da vida dele aqui para vocês. Ainda mais quando eu vou falar sobre a história de amor, amizade e traição que envolve ele, a sua então esposa Pattie Boyd e o seu então melhor amigo Eric Clapton, outro deus da guitarra, que felizmente ainda vive entre nós. Mas eu tenho uma boa desculpa – o que rolou nessa história interferiu diretamente na produção artística dos dois.

Tudo começou quando o “Quiet Beatle” conheceu a modelo com rosto de boneca Pattie Boyd em 1964, nas filmagens de “A Hard Day’s Night” (O Reis do Iê-Iê-Iê aqui no Brasil). Com apenas 19 anos então, ela fazia um papel pequeno como uma das fãs dos Beatles. Comprometida, a moça resistiu aos primeiros avanços do guitarrista. Mas dois anos depois os dois já estavam casados, tendo Paul McCartney como “best man” (próximo ao nosso padrinho aqui no Brasil).

George e Pattie em "A Hard Day's Night"

A união dos dois contava com uma boa cumplicidade: George experimentou LSD pela primeira vez junto com Pattie, e os dois também viajaram juntos para o retiro espiritual do guru Maharishi, na Índia. E vale lembrar, foi a partir daí George alcançou sua maturidade musical. “Something”, uma de suas melhores músicas com os Beatles, foi feita para a esposa. Uma balada dilaceradora de corações, diga-se de passagem.

Mesmo assim, o relacionamento do casal começou a ruir conforme os Beatles também ruíam. A beleza de Pattie atraía outros homens – entre eles Mick Jagger, Ronnie Wood (com quem ela teve um caso em 1973) e até o colega do marido John Lennon. Em defesa de Pattie, vale lembrar que por outro lado George estava longe de ser um homem fiel, e se tornava cada vez mais introspectivo conforme mergulhava em sua procura espiritual.

Dos avanços de todas essas estrelas, nenhum seria mais incisivo do que o do Eric Clapton. No final dos anos 60, George se tornou cada vez mais próximo do guitarrista. Convidou-o inclusive para participar das gravações do White Album, no qual Eric contribuiu com o solo de “While My Guitar Gently Weeps” (ironicamente, o melhor solo da banda). Com a proximidade, Clapton caiu de amores pela mulher do amigo. Tentando substituí-la, chegou até a namorar com a irmã caçula dela, Paula. De nada adiantou. O astro então resolveu canalizar suas dores para o que sabe fazer de melhor – música. Com a banda Derek & The Dominos, fez um disco inteiro em sua homenagem: “Layla and Other Assorted Love Songs”. Obviamente, a Layla do disco tinha na realidade outro nome. Quando Paula ouviu a música, terminou com Clapton na hora. Com duas versões igualmente felizes, “Layla” se tornou um dos sucessos mais duradouros do guitarrista. Outro hit feito para a moça foi “Wonderful Tonight”, de 76. E claro, ele ganhou a garota. Em 1979, quando Pattie e George já eram poeira há tempos, Clapton se casou com sua musa.

Ele conseguiu o que queria: Clapton, finalmente com Pattie

Se eles viveram felizes para sempre? Claro que não. Estamos falando de roqueiros aqui. Clapton poderia ser Deus, mas também era um alcoólatra e viciado em heroína, que podia ficar violento quando menos se esperava. Além disso, ele conseguiu ser pior do que George no quesito fidelidade: chegou a ter uma filha fora do casamento, da qual Pattie só descobriu a existência seis anos após o nascimento. Os dois se divorciaram legalmente em 1989. Final amargo para eles, feliz para nós: as músicas permanecem.

Terça-feira, Fevereiro 14, 2012

Quebrando o tabu

Antes de se posicionar contra ou favor da descriminalização do uso da maconha, ou mesmo de sua legalização, é preciso louvar um documentário que se propõe a debater a ética de uma guerra contra as drogas e avaliar, ainda que sob uma perspectiva bastante parcial, seus efeitos. Quebrando o tabu representa um marco evolutivo na carreira do cineasta Fernando Grostein Andrade, que às vésperas de completar 30 anos, promove uma sacudida daquelas no gênero documentário no cinema nacional. Não que Quebrando o tabu e Coração vagabundo, filme de 2009 que acompanhava Caetano Veloso em turnê, sejam obras que rompam esteticamente com cânones do cinema ou que se insurjam contra paradigmas narrativos. Os filmes se encaixam dentro de um esquematismo didático disponível em qualquer manual de roteiro. Mas em compensação, transbordam coragem, poesia e efervescência.


Grostein inicia Quebrando o tabu apresentando seu principal personagem: Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente e sociólogo colaborou com Grostein na confecção do argumento do longa. FHC surge como um questionador que já tem uma certeza. A guerra contra as drogas faliu. É preciso, segundo suas ilações, rever medidas e posturas. O filme acompanha a jornada de FHC em busca de embasamento para uma tese que o filme já defende de pronto - e a bem sacada animação que dá início à fita não faz questão de esconder esse fato. Essa aparente arrogância (os macacos bêbados ao som da potente trilha sonora de 2001: uma odisséia no espaço dão vez ao letreiro do filme) cede espaço a uma construção ideológica bem arquitetada por meio de depoimentos precisos de valiosos cabos eleitorais como os ex-presidentes americanos Bill Clinton e Jimmy Carter, o médico Drauzio Varela e autoridades sanitárias e políticas da Suíça e Holanda.

Quebrando o tabu, no entanto, não se desvia de argumentos antigos dos defensores da legalização da maconha. Contudo, ao sublinhar a hipocrisia e leniência dos governos em relação ao álcool e ao tabaco, o filme atinge seu melhor momento. A ideia de mudar a política de combate às drogas é pontual e itinerante. Mas cercá-la de demandas pouco substanciais – como dar voz a usuários que admitem preferir se arriscar no trato com o traficante do que respeitar a lei – enfraquecem a discussão em seu traçado mais humanitário, reforçando seu viés ideológico.

Quebrando o tabu arranha questões interessantes. Ao abordar as bem sucedidas intervenções dos governos de Portugal, Suíça e Holanda na questão das drogas, o filme dá um passo à frente a seus opositores. Sugere que a famigerada guerra contra as drogas perde de vista a questão da saúde pública e o impacto positivo passível de efeito mediante uma mudança de abordagem. Mas o filme ignora que a simples legalização da maconha não representa o fim do tráfico de drogas como conceito. Não só pelo fato de que outras drogas proibidas continuarão em oferta (e muito provavelmente mais ampla e barata), como que outras vias de acesso à maconha se viabilizarão.

Na parte superior, o diretor Fernando Grostein e o ex-presidente FHC promovem Quebrando o tabu; na parte inferior o ex-presidente americano Bill Clinton sugere, em entrevista que compõe o filme, que a comunidade internacional precisa rever sua política de combate às drogas


Os prós e os contras não tiram o mérito de Quebrando o tabu; pelo contrário, os reafirma. Incidir sobre uma questão tão polêmica e revestida de ideologias tão proativas é um serviço à sociedade. Em um mundo em que Michael Moore subverte verdades a seus caprichos, não dá para dizer que Grostein erra ao defender tão veementemente a legalização da maconha. É uma postura corajosa que precisa ser respeitada e discutida dentro do jogo democrático que o cinema conclama. Quebrando o tabu pode até soar ingênuo de enxergar um país melhor do que o Brasil demonstra ter vocação. Os exemplos buscados na Europa não convenceram um importante interlocutor do filme; um coordenador de um programa social desenvolvido pelo AfroReggae disse em determinado momento à FHC que não vê o país suficientemente maduro para legalizar a maconha. Quebrando o tabu faz parte desse processo de amadurecimento. Justamente por isso, com seus erros e seus acertos, além de bem vindo, é muito importante.