Faz alguns anos que Robert De Niro não entrega um bom filme. O último, ao que parece, foi Ronin, de John Frankenheimer, de 1998. De lá para cá, o ator abraçou a indústria: fez filmes no piloto automático, de olho nos cachês e na roda que, para ele – como para muitos –, não para de girar. É a roda de Hollywood, na qual muitos astros e diretores percorrem um caminho inverso ao imaginado: começam a carreira com bons filmes, trabalhos corajosos e contestadores; e seguem em puro comodismo, como se pudessem fazer o que querem apenas pelo nome – e pela marca – que carregam. Não raro, tornam-se caricaturas.
De Niro é um caso curioso. Um ator raivoso e explosivo em alguns trabalhos no início da carreira. Em outros, um italiano sereno, quieto, cuja personagem deveria antecipar os passos de um Marlon Brando em sua personagem mais famosa: Don Vito Corleone. Abaixo, uma lista de bons momentos de De Niro. Obras que fazem pensar em sua carreira e que ainda lhe reservam papel de destaque na história do cinema.

Johnny Boy
A abertura de Caminhos Perigosos, grande obra de Martin Scorsese, é dele: Johnny caminha para causar uma explosão. Pura arruaça no belo filme marginal do cineasta americano, uma de suas obras mais pessoais e livres. Pena que não lhe deram bola, em tempos nos quais Clint Eastwood já esbravejava palavras de força contra alguns bandidos em Perseguidor Implacável. Em sintonia com o seu tempo, Johnny Boy sobe em uma mesa para chutar os inimigos. Briga com todos e faz dívidas. Cabe a ele, um coadjuvante, mover o mal e os problemas da fita – e cabe a ele, ainda, colocar o resto do elenco no bolso.

Vito Corleone
O menino que veio da Sicília após ver a mãe ser assassinada tornar-se-ia um dos chefões da máfia nos Estados Unidos em O Poderoso Chefão – Parte 2. É um homem quieto, que ainda carregava algumas características do menino mudo, também de aspecto doente. O menino cresce, fortalece-se e impõe sua escalada: mata um poderoso líder do bairro e quer mais, não para nunca. No entanto, parece mais maleável e ainda digno de um voto de fé quando comparado ao seu sucessor, o filho Michael Corleone, vivido por Al Pacino. A personagem rendeu um Oscar para De Niro e o colocou em um grupo de atores importantes nos quentíssimos anos 1970.

Travis Bickle
Com o corte moicano, Travis passa do homem de poucas palavras, trabalhador, em horas intermináveis a bordo de seu táxi por Nova York, a um assassino disposto a limpar a América. O legado está justamente nessas mutações. Em Taxi Driver, Scorsese examina o homem louco da metrópole – sobrevivente de uma guerra e condenado a viver à deriva do mundo real, o mundo que tentava ajudar a salvar. É também o homem que busca uma saída, que circula em seu táxi por um caminho interminável entre névoa e a música exata de Bernard Herrmann. Torna-se o cavaleiro solitário: como John Wayne em Rastros de Ódio, quer seu alívio no símbolo da inocência corrompida. No filme clássico, a jovem levada pelos índios; no moderno, a jovem que se tornou prostituta e é agenciada por um cafetão.

Michael
Alguns anos após o fim dos conflitos no Vietnã, a ferida continuava aberta. Michael Cimino, jovem diretor da “nova Hollywood”, levava à frente grande ambição: contar a longa história de três amigos que lutam na Guerra do Vietnã e têm suas vidas transformadas em O Franco-Atirador. Michael, na pele de De Niro, é um deles. Condenado a viver em busca dos amigos, é também condenado a viver à sombra da mulher que ama, interpretada por uma jovem Meryl Streep. Como o mundo, aqui, passa longe da perfeição, ela também se vê condenada ao sofrimento, já que seu grande amor é outro, está na guerra e, ao que parece, enlouqueceu em um jogo impensável de roleta russa. Por muitos motivos, o filme é marcante, uma amostra da camaradagem entre homens que ainda faz sentir. Um drama na medida certa com De Niro em sua melhor forma.

Jake La Motta
O boxeador interpretado por De Niro tinha características curiosas e chegou a fazer uma ponta no grande Desafio à Corrupção, de Robert Rossen, filme que Scorsese nunca escondeu amar. Mas um filme no qual o verdadeiro La Motta era pequeno, despercebido, nada que fizesse pensar na fúria que De Niro, depois, levaria à sua face. Em Touro Indomável, o título explica tudo. Por este terreno, alguma irracionalidade masculina ligada à impotência em domar a mulher, em acreditar nela, em fazer sexo com a mesma às vésperas de uma luta. Não poderia. O animal, assim, estava encarcerado em sua falta de forças, em seu próprio ciúme que levava às alturas. No ringue, pagava seus pecados, entregava-se à dor como se ali fosse a arena do alívio.

Rupert Pupkin
Em outra parceria com Scorsese, De Niro vive um homem em busca do sonho americano: o sucesso. Estar na televisão e ser ao público pura alegria. O homem do riso, da comédia. Tudo muito espetaculoso não fossem as dificuldades e a própria crítica a esse sistema de cômicos com outra face por trás do show. Não fosse a fórmula essencial de O Rei da Comédia: o cinismo. E é ai que entra ninguém menos que Jerry Lewis, em um papel dramático também sob medida. O Lewis impensável em contraponto ao De Niro falastrão, que se tornava outro longe das câmeras. Era o homem comum. O material, é verdade, não tinha o cheiro de Scorsese, o que não impediu que De Niro – mesmo em duelo com o grande Lewis – entregasse uma bela interpretação.

David “Noodles” Aaronson
Apenas o nome de Sergio Leone nos créditos faria qualquer ator em plena sanidade correr para o elenco de uma obra como Era Uma Vez na América. Não chega à grandeza das duas primeiras partes de O Poderoso Chefão, mas surge exemplar em muitos aspectos, a começar pela recriação de época e pelo texto – narrado em flashback – que expõe a saga de um grupo de amigos e suas ligações com a máfia. De Niro é sua peça principal e, logo nas primeiras imagens, está entregue ao ópio. O que resgata, em mente, é algo real? Ou tudo não passa de um delírio e uma viagem a um passado com doses de nostalgia e bandidismo mirim? Como se vê, Leone é um mestre. Fala da América em sua trilogia iniciada ainda nos anos 1960. Fala de um território de enigmas.

Rodrigo Mendoza
O conquistador de A Missão mata o próprio irmão, cai na pobreza, paga seus pecados por meio da religiosidade e vê-se, então, ao lado dos índios em um filme ganhador da Palma de Ouro. O papel cabe à perfeição ao ator, que sabe muito bem como mudar de lado, transformar-se sem cair em exageros. A trilha é de Ennio Morricone e imprime suavidade em contraste ao homem tatuado de De Niro, o ser antes asqueroso, depois libertador e corajoso. Roland Joffé havia acertado, antes, com Os Gritos do Silêncio e voltou à boa forma com A Missão – mais uma vez em território nada comum ao grande público americano.

Al Capone
Os Intocáveis não é lá o estouro que se espera. Brian De Palma, seu realizador, teve momentos melhores – antes e depois. No entanto, ao tratar a máfia com um olhar que a infla ainda mais de glamour e que faz pensar em alguns filmes clássicos, não permite que a obra seja ignorada. Muito menos a personagem de De Niro, Al Capone, o todo-poderoso da máfia nos anos da lei seca. O elenco tem nomes para todos os gostos: Kevin Costner, Sean Connery e, além do malvado De Niro, um jovem Andy Garcia. Era a fórmula perfeita, muitos acreditavam. O filme, uma pena, não foi além da boa diversão e de uma homenagem a O Encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein, na sequência em que o carrinho de bebê desce pelas escadarias.

James Conway
A verdadeira mente do mal em Os Bons Companheiros é James Conway. Com Joe Pesci e Ray Liotta, dá luz a uma trinca cujas partes, no decorrer da obra de Scorsese, soam diferentes. Se De Niro é o grande malvado, assassino calculista, Liotta serve de protagonista, o bom aventureiro que desce ao inferno em sua vida como mafioso. E Pesci é o assassino sem medo de atirar, que adora matar. A personagem de De Niro, nesse meio, é coadjuvante de peso, viva na maior parte das sequências importantes e naquele inesquecível plano-sequência, no bar, em que apenas seu olhar revela seu desejo: ele mandou matar todos que estão por ali.

Leonard Lowe
Para provar sua versatilidade, De Niro distancia-se dos ternos típicos dos mafiosos, do ser grotesco pelas ruas de Nova York, e chega em boa forma como um doente à beira de seu despertar. Sai de sono duradouro para viver pelas ruas, em uma nova descoberta, a vida que lhe foi tirada. Tempo de Despertar, de Penny Marshall, rendeu a De Niro outra indicação ao Oscar na categoria principal. Indicação justa, já que o ator dá um show e consegue ultrapassar até mesmo seu colega em cena, Robin Williams, o doutor que leva Leonard a seu despertar.

Max Cady
Reviver uma personagem consagrada na pele de outro ator é sempre um risco. De Niro, mais uma vez ao lado de Scorsese, decidiu corrê-lo. Vive, emCabo do Medo, Max Cady, o vilão perfeito aos medos da classe média americana e que um dia fora interpretado por ninguém menos que Robert Mitchum. Sim, o inesquecível pastor de ovelhas de O Mensageiro do Diabo, além de outras interpretações marcantes. Diferente de De Niro, Mitchum seria mais lembrado pelos vilões, seres menos ambíguos se comparados às personagens dos anos 1970. Eram outros tempos. Max, em qualquer um dos casos, quer vingança. Quer também se divertir à maneira que sabe: tortura, seduz e coloca a vida de uma família de cabeça para baixo.Cabo do Medopassa longe de um grande filme, mas, com De Niro à frente, faz o ingresso valer a pena.

Sam “Ace” Rothstein
O esperto chefe de um cassino, o homem que aparentemente não pode ser passado para trás, perde suas fichas quando algo mais forte que ele surge à frente: Sharon Stone. Quem poderia resistir à mesma loura que, antes, havia legado à história uma famosa cruzada de pernas? Loura, quase perfeita enquanto cínica e atroz, ela faz o homem render-se emCassino. Joga as fichas ao alto enquanto ele vê tudo a distância: observador, pacato, consciente. E como tem consciência! Reconhece o terreno perigoso no qual está prestes a entrar. Aceita o jogo e se vê enroscado em uma trama nada fácil neste filme que passa longe da melhor parceria Scorsese/De Niro. No entanto, em comparação com as atuais produções do ator, um tipo de filme que faz falta.